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OS SENTIMENTOS DE CULPA

As impressões de uma educação baseada no medo, na vergonha e na culpa só desaparecem totalmente se formos conscientes de sua existência e detectarmos seus mecanismos. O medo só ensina a ser desconfiado, a esconder sentimentos autênticos e a mentir; a humilhação é veneno que destrói a autoconsciência saudável, envergonha, torna inseguro e inibido; e a culpa silencia a voz da criança que fomos e bloqueia seus sentimentos.
As pessoas que em sua infância sempre tiveram que “seguir os desejos e as ordens dos adultos” e “dar por estabelecido seus princípios” —chamados por muitos de educação— sem ter a liberdade de duvidar e questionar seu comportamento, são seres que procuram o essencial no invisível e passam por alto o visível, o óbvio, como algo “não essencial”: um bloqueio mental que muitos adultos padecem. Adultos submissos que não podem evitar transformarem-se em fantoches obedientes de outras pessoas porque perderam sua orientação interior (3).
Quando uma criança não pode viver com liberdade seus sentimentos mais precoces —ira, fome, descontentamento, alegria com o próprio corpo— ou quando os pais ou educadores a castigam ou criticam-na pelo mais mínimo erro, tão só com um olhar de proibição ou de desprezo, estão transmitindo o conhecimento de que confessar o próprio fracasso ou os próprios prazeres é arriscado, porque isso lhes arrebatará seu amor e sua estima.
O sucesso que impera em nossa sociedade se alimenta destes medos e culpas infantis; muitos se aferram desesperadamente à máscara da perfeição ou a uma fachada feliz para fazer e sentir o que se espera deles. A depressão é o alto preço que um adulto paga por trair e renunciar a si mesmo. Se não nos insultarem quando pequenos, por nossos erros e nos explicarem as coisas inadequadas de nossas condutas, se formos aceitos pelo que somos e não por cumprir ou atingir as expectativas dos adultos, crescemos com uma confiança básica e uma liberdade para aprender e descobrir por nós mesmos o próprio caminho.
A tortura dos sentimentos de culpa reflete o esforço incessante por trair sentimentos próprios e não poder romper com as constantes manobras de adaptação e a docilidade acomodaticia que aprendemos desde cedo. A maior das feridas é não termos sido amado pelo que éramos, e não há maneira de abordá-la sem um verdadeiro trabalho de luto. As pessoas fazem precisamente o contrário, defendem-se de seu destino infantil e isto é o que mortifica e destrói.
Todas as distorções e bloqueios deixam de ser necessários quando a velha ferida pode ser vivida; libera-nos do medo, da culpa e da ilusão infantis.
TORNAR-SE ADULTO
Uma vida emocional congelada, desejos próprios adiados uma e outra vez, confusão e desorientação interior em situações decisivas de nossa vida, dificuldade para pensar e sentir com clareza, uma consciência anestesiada pela autoenganação, atitudes forçadas e pouco autênticas… todas impressões de bloqueios, de buracos emocionais onde deveria florescer uma vida autêntica, rica e com sentido; a que nos corresponde por ter sido escolhida.
Os adultos que conhecem e vivem com sua história —porque não a negam— recuperam um novo espaço de liberdade: ao terem acesso a uma autêntica compreensão emocional de si mesmos, quando há empatia com o destino infantil, experimentam a liberdade interior, uma inquestionável segurança e força para empregar de maneira criativa, ativa e construtiva sua própria história, em vez de sofrer e seguir sendo vítimas inconscientes do passado (4).
Em muitos de nós ainda vive a criança cheio de temores e culpas, cujos medos nunca puderam ser escutados, aceitos nem vividos de forma consciente. A percepção de quem somos realmente, do que sentimos e precisamos, permite-nos orientar-nos melhor no momento presente e distingui-lo do passado.
A paz e a alegria que muitas pessoas desejam não vêm de fora; o caminho para a maturidade é o de uma profunda empatia com nós mesmos. Como podemos ser empáticos com os demais se não somos com nós mesmos? Podemos recuperar nossa capacidade original de amar e de comunicar em liberdade, ao restabelecermos a confiança, o respeito e a lealdade do nosso verdadeiro ser.

* As citações poéticas pertencem à obra La tierra santa, de Alda Merini.
(1) Grande parte da sociedade nega ou banaliza os sofrimentos padecidos na primeira infância. Basta prestar atenção na linguagem que utilizam: enquanto denominam tortura à violência exercida contra os adultos, continuam chamando educação a que é exercida com as crianças.
(2) Muitas vezes aparecem em nossa vida cotidiana sentimentos intensos e perturbadores que nos incomodam ou assustam. Se forem habilitados, também revelarão verdades de nossa história pessoal que tivemos que silenciar.
(3) Esta cegueira emocional pode explicar o conformismo tão difundido em nossa sociedade e por que muitos adultos se deixam corromper por ideologias autoritárias.
(4) Essa armadilha que nos parecia ineludível, essa ferida incurável, esse dilema insolúvel, aqueles velhos bloqueios, de repente resultam diferentes e abordáveis porque deixamos de carregar velhas culpas e temores.

Fonte: Revista Criterio, www.revistacriterio.com.ar

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